No próximo dia 12 de setembro, a Articulação Antinuclear Brasileira realizará mais um encontro nacional para discutir o Programa Nuclear Brasileiro. É legítimo ser contra a energia nuclear. Mas talvez esteja na hora de a sociedade fazer uma pergunta igualmente legítima: quem financia, no Brasil, as organizações e campanhas dedicadas a combater essa fonte de energia?
Não se trata de teoria conspiratória. Existem fatos documentados.
A própria Articulação Antinuclear Brasileira informa que nasceu, em maio de 2011, durante encontro promovido pela Fundação Heinrich Böll, em parceria com a Rede Brasileira de Justiça Ambiental. A própria fundação declarou que aquele encontro tinha como objetivo “fortalecer a luta antinuclear no Brasil”.
A Heinrich Böll é uma fundação política alemã ligada historicamente ao movimento verde. Seus próprios documentos mostram que suas atividades são financiadas predominantemente por recursos públicos alemães.
Isso é ilegal? Não. Mas é uma informação que a sociedade brasileira tem o direito de conhecer
Principalmente quando lembramos que a Alemanha foi o país que levou mais longe a política de abandono da geração nuclear, desligando suas últimas usinas em 2023. Hoje, enfrenta preços de eletricidade entre os mais elevados da Europa e tem grandes emissões de gazes de efeito estufa e sérios problemas de competitividade de sua indústria.
Seria incorreto atribuir toda a situação industrial alemã ao fechamento das usinas nucleares. A perda do gás russo barato, a guerra na Ucrânia e outros fatores tiveram enorme importância. Mas também seria pouco razoável considerar irrelevante a retirada de uma importante fonte de geração firme e de baixo carbono.
Enquanto isso, o mundo caminha em outra direção.
Existem hoje mais de 70 reatores nucleares em construção. A China lidera essa expansão, construindo simultaneamente 38 novas unidades.
A própria Europa também reposicionou a energia nuclear em sua estratégia energética. A Comissão Europeia estima que serão necessários cerca de € 241 bilhões em investimentos nucleares até 2050, incluindo prolongamento da vida útil das centrais existentes e construção de novos reatores. A projeção europeia é de aumento da capacidade nuclear instalada nas próximas décadas.
Não estamos, portanto, falando de uma tecnologia que o mundo esteja abandonando.
O Brasil deveria prestar atenção.
Temos importantes reservas de urânio, dominamos etapas estratégicas do ciclo do combustível nuclear, possuímos décadas de experiência operacional em Angra e dispomos de instituições, engenheiros e pesquisadores altamente qualificados.
Temos também um sistema elétrico que mudou profundamente.
A extraordinária expansão das fontes eólica e solar trouxe benefícios, mas também novos desafios: variabilidade da geração, curtailment, necessidade crescente de transmissão, armazenamento e fontes capazes de produzir eletricidade independentemente das condições meteorológicas.
Não precisamos escolher entre renováveis e nuclear. Precisamos das renováveis e precisamos de geração firme e de baixo carbono.
Por isso preocupa que parte do debate nuclear brasileiro continue sendo conduzida como se estivéssemos nos anos 1980, explorando predominantemente acidentes, radiação e medo.
Segurança nuclear, rejeitos, custos e prazos precisam ser discutidos. Evidentemente.
Mas precisam ser discutidos juntamente com segurança energética, custo total do sistema elétrico, competitividade industrial, emissões de carbono e planejamento de longo prazo.
E existe uma questão adicional: transparência.
Se uma empresa nuclear financiasse uma organização destinada a defender publicamente a construção de usinas, seria absolutamente correto exigir que essa relação fosse conhecida.
Por que não aplicar o mesmo princípio às organizações que trabalham para impedir sua construção?
Não devemos acusar ninguém de representar “interesses obscuros” sem apresentar provas.
Devemos fazer algo mais simples e mais eficaz: exigir que os interesses deixem de ser obscuros.
Que as organizações favoráveis e contrárias à energia nuclear divulguem seus financiadores, os valores recebidos, a origem nacional ou estrangeira dos recursos e os projetos aos quais foram destinados.
E que cada afirmação sobre energia nuclear venha acompanhada de dados que possam ser confrontados publicamente.
O Brasil está tomando decisões que definirão sua segurança energética e sua capacidade industrial até 2050 e além. Um país com nossas reservas de urânio, conhecimento tecnológico e necessidade crescente de energia não pode abrir mão de discutir seriamente a opção nuclear.
O movimento antinuclear tem todo o direito de participar desse debate.
Mas a sociedade brasileira também tem o direito de perguntar:
Quem financia a oposição à energia nuclear no Brasil — e quais interesses estão sendo defendidos?
Autor: Carlos Henrique Silva Seixas
Foto da usina de Angra dos Reis: Saulo Cruz/MME/ Divulgação