O desenvolvimento do Microrreator Nuclear Brasileiro é um dos movimentos mais inovadores e estruturantes da área nuclear nacional nas últimas décadas. Contando com a participação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), presidida por Francisco Rondinelli, o projeto tem avançado com solidez técnica, suporte de financiamento e um modelo inédito de cooperação entre instituições públicas, universidades e setor privado.
A iniciativa nasceu a partir da proposta apresentada pelo coordenador técnico do projeto, Adolfo Braid, com apoio da empresa Diamante Energia, que buscava alternativas tecnológicas sustentáveis e eficientes para diversificar suas operações. O conceito inovador prevê um microrreator de aproximadamente 5 megawatts, com possibilidade futura de ampliação, capaz de atender desde municípios isolados até aplicações estratégicas, como data centers e sistemas de inteligência artificial.
“Temos condição de fazer com tecnologia nacional, é uma tecnologia somente usada em satélites e sistemas muito pequenos, mas ele afirmou que já avaliava um tempo a possibilidade de utilizar o conceito para a produção de um microrreator para produção de energia. Onde ele fez um estudo que um reator deste, se você juntar quatro de 5 megawatts, você consegue alimentar 50% dos municípios do Brasil. Esse dado é fantástico!” explicou Rondinelli sobre a apresentação de Braid do projeto.
Um dos grandes diferenciais do projeto é o uso de tecnologia nacional e soluções inéditas. O reator emprega combustível de urânio enriquecido a 19%, tecnologia já dominada pelo Brasil e traz uma inovação central no sistema de remoção de calor: os chamados “tubos de calor”, preenchidos com sódio. Esse sistema permite absorção, transferência e dissipação térmica por circulação natural, garantindo não apenas eficiência operacional, mas também segurança intrínseca, sem necessidade de operação com água pressurizada.
Além disso, o microrreator é compacto e modular, podendo ser instalado dentro de um contêiner, operando no conceito “plug and play”: transportável, de fácil instalação e capaz de operar por até dez anos sem necessidade de reabastecimento, apenas com monitoramento técnico contínuo.
Avanços concretos e horizonte de implantação
A CNEN, por meio do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), deu entrada no processo de licenciamento da Unidade Crítica, estrutura essencial para testes do combustível e validação de parâmetros de operação. A expectativa é avançar nos estudos e testes até o final da década, com projeção de desenvolvimento do protótipo até meados da próxima, consolidando o Brasil como referência em tecnologia nuclear inovadora.
“Essa é a primeira fase. Esperamos ter esses resultados até 2033. E a previsão é ter até 2035 ter um protótipo. Minha expectativa é ter um microrreator pronto até 2035” afirmou o presidente da CNEN.
Entre os principais desafios técnicos, estão o desenvolvimento e a fabricação de tubos de calor em maior escala e comprimento, tarefa que está sendo conduzida em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Universidade de Campinas (Unicamp), incluindo o uso de impressão 3D e novas ligas metálicas. Do ponto de vista regulatório, a CNEN já trabalha para que a autoridade regulatória nacional acompanhe o processo desde o início, dada a natureza inédita da tecnologia.
Cooperação público-privada inédita no setor nuclear
O projeto se destaca também por inaugurar um novo modelo de cooperação no setor nuclear brasileiro. Trata-se de uma parceria público-privada estruturada entre a CNEN e a Diamante Energia, com financiamento compartilhado entre a empresa e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), que concedeu nota máxima à proposta. A iniciativa está amparada pela legislação de inovação e possibilita à CNEN atuar em sinergia com o setor produtivo para desenvolvimento tecnológico estratégico de uma tecnologia estratégica para o país.
“É algo inédito! A CNEN em sua lei de criação tem permissão para isso. Há um dispositivo que permite que a Comissão se associe a empresas e instituições para desenvolver sua atividade, ou seja, já tem autorização legal concedida pelo congresso. Vamos construir um projeto de inovação, dentro do escopo da lei de inovação. Inclusive, a lei de inovação foi para juntar o interesse da empresa privada com a capacitação técnica da instituição pública” explica Francisco Rondinelli sobre o a cooperação público-privada.
Enquanto a empresa assume responsabilidade financeira e empresarial, a CNEN e seus institutos, além das universidades envolvidas, aportam capacidade técnica e infraestrutura científica. A propriedade intelectual será compartilhada, garantindo retorno tecnológico ao Estado brasileiro e perspectiva de industrialização nacional da tecnologia, com potencial de inserção do Brasil no mercado internacional de microrreatores.
Aceitação pública e evento de regulação da Agência Atômica Internacional
Sobre o processo de aceitação pública, Rondinelli afirma que os participantes do projeto estão empenhados na produção de eventos e na criação de uma relação direta com a mídia, enfatizando ainda a importância de audiências públicas.
A CNEN também participou de um evento na Agência Internacional de Energia (AIEA), que é uma iniciativa para harmonizar a padronização normativa, ou seja, fazer com que os órgãos regulatórios e as instituições reguladas promovam maior intercâmbio de experiências a fim de aprimorar os padrões normativos adotados
“A participação da comissão o foi como usuária e desenvolvedora de um modelo de reator. Nesse sentido é importante participarmos da iniciativa acompanhar as discussões” comentou Rondinelli.
Impacto estratégico para o Brasil
O microrreator conta com uma operação estável e emissão reduzida de carbono, o que representa uma alternativa estratégica para expansão da matriz energética nacional com segurança, confiabilidade e baixo impacto ambiental. A tecnologia poderá atender regiões remotas, apoiar infraestrutura crítica, reforçar a segurança energética e fortalecer a soberania tecnológica do país.
Para Francisco Rondinelli, o projeto simboliza mais do que inovação tecnológica: representa um marco de confiança no potencial científico nacional, na integração entre setores e na construção de soluções que posicionam o Brasil entre os líderes globais em tecnologia nuclear avançada.
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