Uma pesquisa recente destacada pelo portal Metrópoles aponta que um medicamento utilizado no tratamento da artrite pode reduzir a inflamação em rins doadores e melhorar a função do órgão após o transplante. O estudo abre novas perspectivas para aumentar a segurança e a eficácia dos transplantes renais e também reforça a importância de ferramentas já consolidadas na prática clínica.
Embora a pesquisa esteja focada em terapias medicamentosas, médicos ressaltam que a medicina nuclear desempenha um papel fundamental na análise funcional dos rins antes da cirurgia e no monitoramento do órgão transplantado. Segundo a médica nuclear Dra. Màyara Torres (CRMSP 147385/RQE85929), a especialidade permite ir além dos exames convencionais ao avaliar, em tempo real, como o órgão está funcionando de forma dinâmica e perfusional.
“A medicina nuclear já contribui diretamente nesses pacientes, principalmente na fase pré-transplante, especialmente quando falamos de doadores vivos”, explica a médica.
Avaliação funcional antes do transplante
No contexto do transplante renal, um dos exames mais importantes é a cintilografia renal dinâmica, utilizada para avaliar a função individual de cada rim do doador. Diferentemente dos exames laboratoriais, como a creatinina, que mostram apenas uma média da função renal, a cintilografia renal dinâmica (99mTc-DTPA) permite avaliar a função renal global e de forma individual, inclusive revelando se um rim está compensando o outro.
“Às vezes, o exame de sangue está normal, mas um dos rins pode estar com a função comprometida. Só conseguimos identificar isso com a cintilografia renal. Esse cuidado evita expor o doador a um procedimento desnecessário e reduz o risco de complicações cirúrgicas” , destaca Dra. Màyara.
Além da cintilografia, o processo de avaliação pré-transplante pode incluir exames laboratoriais, ultrassonografia e métodos de imagem como tomografia e ressonância magnética, geralmente sem contraste, já que o contraste iodado pode agravar uma função renal já comprometida.
Monitoramento após o transplante
O papel da medicina nuclear não se encerra na cirurgia. No pós-transplante, a cintilografia renal continua sendo uma ferramenta essencial para acompanhar a evolução do enxerto e identificar precocemente possíveis complicações.
“Com a cintilografia renal dinâmica, conseguimos avaliar se o rim transplantado está recebendo fluxo sanguíneo adequado, se a função está preservada e se a eliminação da urina ocorre de forma correta”, afirma a doutora.
Em casos de suspeita de rejeição, os exames estruturais, como a ultrassonografia, podem ser inconclusivos. Nesses cenários, a medicina nuclear complementa a investigação ao fornecer informações funcionais que ajudam a orientar decisões clínicas, como a necessidade de biópsia ou ajustes no tratamento.
Possível contribuição em novas terapias
Embora ainda não existam estudos específicos relacionando diretamente a medicina nuclear ao monitoramento do medicamento citado na reportagem do Metrópoles, a Dra. Màyara aponta que a especialidade pode contribuir futuramente para avaliar a eficácia dessas intervenções.
“Seria possível comparar, por exemplo, pacientes que utilizaram ou não o medicamento, avaliando a função renal por meio da cintilografia. Isso ajudaria a verificar se houve, de fato, uma melhora funcional do rim”, explica.
A medicina nuclear já atua de forma relevante no pré e no pós-transplante e pode, inclusive, apoiar novas linhas de pesquisa.
Além dos rins: outros órgãos também se beneficiam
A aplicação da medicina nuclear não se limita aos transplantes renais. Exames como a cintilografia de perfusão e ventilação pulmonar e a cintilografia hepática permitem avaliar, de forma funcional, pulmões e fígado, tanto antes quanto após o transplante.
“A grande vantagem é que os radiofármacos não prejudicam a função renal, o que torna esses exames seguros mesmo para pacientes com comorbidades ou com comprometimento da função renal”, ressalta a médica.
Desafios de acesso no Brasil
Apesar dos benefícios, o acesso à medicina nuclear ainda é limitado no país. A especialidade está concentrada principalmente nos grandes centros urbanos, devido à logística envolvida na produção e no transporte dos radiofármacos, que possuem meia-vida curta.
“Além disso, o serviço de medicina nuclear precisa, preferencialmente, estar dentro de hospitais autorizados a realizar transplantes, o que restringe ainda mais o acesso da população”, pontua Dra. Màyara.
Combatendo mitos e ampliando o conhecimento
Um dos principais obstáculos enfrentados pela especialidade é o medo da radiação, muitas vezes alimentado por desinformação. A médica reforça que os exames são seguros e seguem rigorosos protocolos de radioproteção de acordo com as normas da CNEN e guidelines internacionais.
“Usamos o mínimo de dose possível para obter o máximo de eficácia. Os benefícios são muito maiores do que os riscos”, afirma.
Para ampliar o conhecimento da população e até de outros profissionais de saúde, a Dra. Màyara aposta na divulgação científica por meio das redes sociais e de iniciativas como o podcast Medical Isotalks (disponível no YouTube), dedicado à medicina nuclear.
“Hoje, as redes sociais se tornaram o novo Google. É fundamental que profissionais de saúde ocupem esse espaço com informação baseada em ciência”, conclui.
Com avanços previstos no desenvolvimento de novos radiofármacos e no uso de tecnologias como o PET-CT, a expectativa é que a medicina nuclear tenha um impacto cada vez maior na detecção precoce de complicações e na evolução dos tratamentos, inclusive no campo dos transplantes.
Imagem: Ilustrativa