Após mais de uma década marcada por avanços técnicos, entraves orçamentários e mudanças de governança, o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) de 30MW chega a um momento decisivo. Inserido no novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o projeto avança com as obras de infraestrutura e na definição do modelo de contratação de um consórcio, e se prepara para iniciar a construção de um complexo nuclear estratégico para a ciência, a saúde e a soberania tecnológica do país.
Um projeto que nasce com a ambição de um programa nuclear
A origem do RMB remonta a 2008, durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando foi criado o Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro (CDPNB). Naquele momento, o governo federal passou a discutir, de forma integrada entre ministérios, uma proposta abrangente para estruturar um programa nuclear nacional.
“Foram realizadas diversas reuniões entre diferentes ministérios para discutir propostas para a criação de um Programa Nuclear Brasileiro (PrNB). Dentro do programa havia a conclusão de Angra 3, construir mais quatro usinas nucleares, ampliação da capacidade de enriquecimento de urânio, a implantação de um repositório de rejeitos radioativos e a construção de um reator multipropósito para o país” explica o presidente da Comissão de Energia Nuclear (CNEN), Francisco Rondinelli.
Rondinelli afirma que embora a proposta tenha avançado conceitualmente, não houve uma aprovação formal de um programa nuclear integrado. As iniciativas acabaram sendo distribuídas entre diferentes órgãos e instrumentos de planejamento, como o Plano Plurianual (PPA) e, posteriormente, o PAC, o que fragmentou a governança do projeto.
Avanços técnicos e entraves orçamentários
A partir de 2011, o RMB passou a integrar o PPA, mas enfrentou um desafio estrutural: enquanto o planejamento governamental opera em ciclos de quatro anos, projetos nucleares exigem horizontes mínimos de oito a dez anos. Ainda assim, os primeiros aportes de recursos, realizados a partir de 2012, permitiram avanços fundamentais.
Com aproximadamente R$ 200 milhões investidos nessa fase inicial, foi possível desenvolver o projeto básico do empreendimento e concluir o projeto de engenharia detalhado do reator.
“O RMB não é um reator, ele é um novo centro de pesquisa. A principal instalação é um reator nuclear de pesquisa, mas também terão laboratórios e outras instalações” reforça o presidente da CNEN.
O RMB foi estruturado para atender a quatro grandes finalidades: produção de radiofármacos, pesquisa com feixe de nêutrons para estudos de materiais, testes de componentes de usinas nucleares e ensaios de combustíveis nucleares.
Entretanto, a partir de 2016, o projeto passou a sofrer impactos diretos das políticas de contenção fiscal. Os governos subsequentes priorizaram a redução de gastos públicos, o que limitou a continuidade dos investimentos. Apesar disso, o trabalho técnico não foi interrompido: os projetos permaneceram sendo aprimorados, evitando perdas de conhecimento e garantindo maturidade técnica ao empreendimento. Em 2018, consolidam-se as diretrizes sobre a Política Nuclear Brasileira (PNB).
Retomada e novo impulso institucional
A retomada mais consistente ocorreu no final de 2022, com a liberação de novos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), gerido pelo MCTI e operado pela FINEP. A estratégia adotada foi clara: priorizar a conclusão dos projetos de engenharia antes do início das obras civis, evitando gastos prematuros com infraestrutura física sem respaldo técnico definitivo.
Essa decisão permitiu recolocar o RMB em um patamar de planejamento estruturado, preparando o terreno para a fase de construção. Paralelamente, o projeto passou a ser tratado como prioridade estratégica, culminando com sua inclusão no Novo PAC, um marco institucional que garante maior previsibilidade orçamentária e acompanhamento direto pela Casa Civil.
Cooperação internacional e modelo de contratação
No momento atual, o foco do projeto está na definição do modelo de contratação para a construção do reator e das instalações associadas. Nesse contexto, ganha destaque a cooperação com a empresa estatal argentina INVAP, única na América Latina com experiência comprovada na engenharia e construção de reatores de pesquisa, com projetos entregues a países como Austrália, Holanda, Bélgica e Peru.
“Fomos para Argentina negociar os termos do acordo bilateral Brasil-Argentina, por meio da Comissão Binacional de Energia Nuclear (COBEN), que envolveu definição de escopo, prazos e cronograma. A INVAP será responsável pela chamada “ilha nuclear”, talvez um ¼ das atividades de trabalho. Junto com ela, precisaremos de uma empresa de construção de um centro de pesquisa. Não é só o reator de pesquisa. Você precisa de toda uma infraestrutura de laboratório, operacional, administrativa e acessos” detalhou Rondinelli.
A proposta prevê a formação de um consórcio, reunindo expertise internacional em tecnologia nuclear e capacidade nacional em grandes obras de infraestrutura, estratégia considerada essencial para mitigar riscos e garantir a integração entre sistemas nucleares e civis.
Infraestrutura em andamento e próximos passos
No sítio onde será instalado o RMB, em Iperó/SP, as obras de infraestrutura já avançam. A preparação do terreno, incluindo terraplenagem, drenagem, arruamento e organização do campus, encontra-se em fase final, com conclusão prevista para março de 2026. Essa etapa marca o encerramento da fase preparatória e abre caminho para o início das obras principais.
Paralelamente, o projeto passa por atualização de custos. Estimativas indicam que o reator, isoladamente, demanda cerca de R$ 3 bilhões, enquanto o conjunto completo do RMB com laboratórios, áreas administrativas e infraestrutura de apoio, eleva o investimento total para aproximadamente R$ 6 bilhões, distribuídos ao longo de cinco anos.
Um projeto estratégico de longo prazo
O cronograma atual prevê o início da construção do reator até o final deste ano, com conclusão das obras civis até 2030. O período seguinte será dedicado ao comissionamento e aos testes operacionais, etapa essencial da etapa regulatória nuclear. A expectativa é que as primeiras operações ocorram em 2031, com plena capacidade instalada em 2032.
“Primeiro que vamos eliminar nossa dependência de um componente fundamental para as aplicações nucleares, que são os radioisótopos. E ele tem um problema, decai com o tempo, você não consegue armazenar, você tem um determinado tempo para usar, e quanto mais você demora, mais ele perde energia. Hoje importamos a maior parte da Rússia, só que você compra lá e perde uma parte da radioatividade até chegar aqui no Brasil. No final, pagamos uma quantidade superior do que pagaremos aqui” explica presidente da CNEN uma da principal diferença que o RMB vai garantir para o país.
Mais do que um empreendimento de infraestrutura, o RMB é apresentado como um projeto estratégico para o país. Sua entrada em operação deve reduzir drasticamente a dependência brasileira da importação de radioisótopos, hoje majoritariamente adquiridos no exterior, além de fortalecer áreas como saúde, pesquisa científica, indústria, agricultura e meio ambiente.
Após quase duas décadas de concepção, ajustes e amadurecimento técnico, o Reator Multipropósito Brasileiro de 30MW chega a um momento decisivo. A combinação entre governança estruturada, prioridade política e planejamento de longo prazo será determinante para que o projeto finalmente saia do papel e se consolide como um dos principais ativos científicos e tecnológicos do Brasil.