O Brasil deu um passo estratégico rumo à autonomia tecnológica na área da saúde com o início da produção nacional do Lutécio-177 (Lu-177), radioisótopo utilizado no tratamento de câncer de próstata metastático e tumores neuroendócrinos. A iniciativa é fruto de uma parceria entre a Marinha do Brasil e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), que uniu esforços para operar o reator nuclear IEA-R1 em regime contínuo e formar novos profissionais especializados.
Segundo a diretora-superintendente do IPEN, Dra. Isolda Costa, a colaboração está alinhada aos objetivos estratégicos do instituto: “Impulsionamos a pesquisa e a inovação na área nuclear, promovemos a formação especializada de profissionais e ampliamos a oferta de aplicações nucleares para a sociedade. Essa parceria está 100% em sintonia com nossa missão institucional”, destacou.
Desafios técnicos e fortalecimento de equipes
O reator IEA-R1, em funcionamento desde 1957, precisou ser adaptado para operar em regime estendido após mais de uma década de interrupções.A Dra. Isolda Costa, explicou que a escassez de mão de obra foi o principal entrave superado. “Sem o apoio da Marinha, seria impossível manter a operação contínua. Até agora, cerca de 30 militares foram treinados, incluindo supervisores de operação e técnicos em radioproteção”, afirmou.
O reforço humano tem permitido ampliar a produção de radioisótopos, antes limitada pela capacidade reduzida da equipe local. O Lu-177 é produzido a partir da irradiação de alvos de itérbio-176 ou lutécio-176, processos que exigem longos períodos de operação contínua do reator.
Ganhos econômicos e redução da dependência externa
A produção própria deve aliviar os cofres públicos. Apenas em 2024, o Brasil gastou R$ 8,3 milhões na importação do Lutécio-177. Além do impacto financeiro, a diretora-superintendente do IPEN, destaca as vantagens logísticas: “A produção local minimiza atrasos no transporte aéreo e entraves alfandegários, que frequentemente comprometem a programação de produção e o atendimento aos pacientes”.
Embora a produção nacional ainda não seja suficiente para suprir toda a demanda, que em 2024 somou quase 740 doses do radiofármaco DOTATATO, ligante que transforma o radioisótopo em um radiofármaco, também chamado de DOT-IPEN-177, especialistas avaliam que a iniciativa representa um avanço importante rumo à autonomia do setor.
Avanços clínicos no tratamento do câncer
O Lu-177 é a base de radiofármacos que já transformam a vida de pacientes oncológicos. No caso dos tumores neuroendócrinos, o DOT-IPEN-177 tem se mostrado eficaz na redução das lesões metastáticas e na melhora da sobrevida. Para o câncer de próstata avançado, o Lu-177-PSMA surge como uma alternativa terapêutica direcionada, atacando de forma seletiva células tumorais que expressam receptores específicos.
“Esses tratamentos representam uma abordagem inovadora e altamente específica, com benefícios comprovados para a qualidade de vida dos pacientes”, afirmou Costa.
Perspectivas
Os próximos passos envolvem o aumento gradual da escala de produção e a consolidação de rotas alternativas para obtenção do Lu-177 com maior atividade específica. Mesmo que parte do insumo ainda precise ser importada, a parceria entre Marinha e IPEN já é considerada um marco para a medicina nuclear no Brasil.
Imagem: Reprodução/ Youtube da Marinha