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Uma Revolução Espiritual

18/10/2013 11:33:32

* Por Sam Cyrous

 

O mítico “Imagine” de John Lennon, da sua discografia a solo de outubro de 1971, propõe-nos a todos um desafio: imaginarmos um mundo perfeito sem países ou religiões, sem motivos para matar ou morrer, sem ganância ou fome, numa fraternidade de pessoas compartilhando um só mundo. E se no mesmo mês de outubro, mas século e meio antes, alguém já tivesse estabelecido as condições para conseguirmos algo melhor que isso?

Em 20 de outubro de 1819 nascia, na cidade persa de Shiráz, Siyyid ‘Ali-Muhammad, posteriormente intitulado de O Báb (“A Porta”), um Ser que permitia o cruzar dos mundos do Oriente das filosofias transcendentais ao Ocidente da tecnologia, que unia o passado ao futuro, o que a Terra era até então e o que ela poderia vir a ser.

A música de Lennon convida-nos a imaginar um mundo sem religiões. Mas e se em vez disso compreendêssemos a Religião como uma só Verdade una e universal, que se manifesta em eras diferentes trazendo ensinamentos que permitam a evolução humana de um estágio para o seguinte, sem romper com o princípio básico de Amor? E se imaginarmos que a Religião é Divina em sua essência e que nós humanos criamos conflitos por querermos impor nossos entendimentos sobre os outros? Esse era o mundo concebido pel’O Báb, o Precursor e Arauto da Fé Bahá’í.

O Báb manifestou-Se numa época na qual muçulmanos esperavam o Imám Oculto, uma Figura que prepararia o mundo para o regresso de Jesus, o Espírito puro de Deus, enquanto cristãos calculavam e previam o regresso de Cristo (Swedenborg, Miller ou Smith são alguns dos exemplos).

Assim como a luz do sol que passa pelas nuvens físicas que o obscurecem, O Báb fez brilhar significados ocultos entesourados por entre o sentido literal da Bíblia. Concebeu, por exemplo, um mundo sem paraíso e sem inferno, porque o céu é a perfeição e a harmonia com a vontade de Deus e com os demais, enquanto inferno seria a ausência de tudo isso. Em meio a uma sociedade fanática, ensinava que o céu é o resultado das alegrias espirituais que sentimos em vida, e o inferno a privação dessas bençãos.

Como Cristo, o Báb teve seus primeiros seguidores, os bábís, inicialmente 18 em número, que espalharam a Sua palavra. “Uma das mais interessantes conquistas do Babismo [a religião fundada pel’O Báb] é a elevação da condição da mulher… O próprio Báb tinha uma mulher como discípulo, que tendo compartilhado todos os perigos das primeiras missões apostólicas, desafiou e morreu com coragem viril, como uma mártir.”, afirmou Sir Chirol, um dos editores da The Time, escreveu ainda que a “nova dispensação deve ser lembrada como a continuação e o cumprimento das prévias dispensações Mosaica, Cristã e Muçulmana. Os judeus não esperam ainda o Prometido Messias, os cristãos a segunda vinda de Cristo e os muçulmanos pelo aparecimento do Mihdí? O Babismo é a manifestação que todos eles estão esperando…” Por isso é apenas natural que E. G. Brown, proeminente orientólogo da época, dissesse que um babí era sempre reconhecido por sua conversação significativa: sempre que a oportunidade surgisse demonstraria de alguma forma “a sua crença na evolução da raça humana”.

A unidade das religiões, a existência de um só Deus, a igualdade entre homens e mulheres, o respeito e o amor ao próximo, e a emblemática frase “a Terra é um só país, e os seres humanos seus cidadãos” são o resultado de Seu pensamento. Não é esse o imaginário do sonhadores que cantam aquela Imagine da década de 1970?

Mais que sonhadores, necessitamos - quem sabe - de revolucionários capazes de se fazerem agentes da transformação social. Não revolucionários de armas ou espada, mas aqueles santos e nobres revolucionários que deram a sua vida em sacrifício para defenderem a Verdade que Deus é um pai bondoso, nos três primeiros séculos da Era Cristã.

O diplomata do governo francês, A. L. M. Nicolas afirmou que, da mesma forma que os discípulos de Cristo, degolados publicamente por leões, os bábís converteram-se em “um dos mais magnificentes exemplos de coragem que a humanidade tem testemunhado e é também uma admirável prova do amor nutrido por nosso herói por seus semelhantes. Ele [O Báb] sacrificou-se pela humanidade, deu seu corpo e sua alma, sofreu provações, insultos, indignidades, tortura e martírio. Ele selou com seu sangue o pacto da fraternidade universal e como Jesus, deu sua vida como o arauto do reino da concórdia, justiça e amor por seu próximo”.

Mais do que um revolucionário de guerras, O Báb foi o revolucionário espiritual da paz; talvez por isso o autor português Eça de Queiróz tenha ficado tão encantado com Ele: “Calado, invadido pelo pensamento do Báb revolvia comigo o confuso desejo de me aventurar nessa campanha espiritual… Por que não? Tinha a mocidade, tinha o entusiasmo… Via-me discípulo do Báb… E partia logo a pregar, a espalhar o verbo babista (…) certamente, levando de preferência a salvação às almas que me eram mais caras.”

E para o seguidor do Báb, assim como para os bahá’ís, a salvação não é pessoal, mas universal. Não se trata de individualmente salvarmos nossas almas e reservarmos um espaço no ‘Outro Mundo!’ Queiróz percebeu que a salvação é para todas as almas.

Por isso, cabe a nós usarmos o momento no qual vivemos, o momento de mocidade da raça humana, para que possa emergir a plenitude da nossa espécie ao serviço da sociedade. No tempo de Jesus as promessas foram estabelecidas e por dois milênios trabalhamos para que “venha a nós o Vosso Reino”. Hoje, no tempo d’O Báb, somos chamados a cumprir o que foi prometido — é a era da realização.

Nesse contexto, a Fé Bahá’í convida toda alma ansiosa por melhorar as condições materiais e espirituais à sua volta a iniciar o processo de transformação coletiva. As atividades que impulsionam o processo são reuniões que fortalecem o caráter devocional da comunidade, aulas que nutrem as mentes e corações das crianças, grupos que – com material transcultural – canalizam a energia vibrante dos pré-jovens e círculos de estudos que permitem a pessoas das mais diversas origens avançarem em pé de igualdade e explorarem juntas a aplicação de ensinamentos éticos e espirituais em suas vidas individuais e coletivas.

Mais do que cantarolarmos em inglês o nosso imagine um mundo melhor, com a visão instaurada pel’O Báb podemos realmente trazer à existência o último verso da música: “um mundo que será como um”.

 

* Sam Cyrous é Psicólogo, Terapeuta, Membro da Comunidade Bahá’í do Brasil e Consultor de Direitos Humanos, Cultura de Paz e Igualdade Racial.


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